Os professores pararam. Alguns alunos comemoram, outros, ficam perdidos
entre trabalhos para entregar e matérias mal terminadas. Esse texto é a
realidade dos últimos dias na minha escola, e em muitas escolas de São
Paulo também. É a greve. Como todo ano, quando menos se espera, quando
menos se quer, mas pode ser necessário.
Esse é apenas um desabafo de uma aluna que está um pouco irritada com a situação que se repete todos os anos e parece não haver resultado. Posso estar errada, mas é apenas minha voz em meio ao desespero dos professores e alegria de alguns alunos.
Como nos veem?
Alunos da rede pública, aos olhos da sociedade são vistos como burros ou perigosos. Mas não somos. Temos ótimos professores e uma boa escola (em relação a minha). Apenas estamos presos em um sistema de educação propositalmente falido e às vezes essa injustiça revolta. Falta de vontade? Não. Falta mesmo educação e respeito. Educação vinda de pais mais otimistas que cobrem o melhor dos filhos e respeito de um governo que não pague um aluno para ir à escola almoçar e passar de ano, e sim investir em uma reprovação por necessidade para que venha bancar a si mesmo no futuro.
Alunos da rede pública, aos olhos de um professor são divididos entre educados e mal educados. Educados cumprem com obrigações e mal educados não. Mas na verdade um aluno que não cumpre sua obrigação tem extrema dificuldade em cumpri-la simplesmente porque nunca foi cobrado. Alguns jogam a toalha e não há conselho que apague a ideia de que a injustiça é uma barreira inabalável, outros conseguem levar porque ainda lhe restam esperanças. Porém, se reeducar é muito mais difícil. Alunos educados geralmente sentem as mesmas dificuldades, mas encaram como desafios. Nesse ponto, posso dizer que um aluno precisa, na escola pública, lidar com os professores falando constantemente sobre injustiças e ao mesmo tempo falando que somos muito capazes. Consiste em não se acostumar com a "facilidade" e ao mesmo tempo fazer sozinho ser algo mais produtivo.
Alunos da rede pública aos olhos do governo são marionetes. Ao mesmo tempo que dão benefícios para ingressarmos em faculdades com mais facilidade, estão cada vez mais piorando o ensino. No fim, pesquisas apontam que menos de 30% de alunos da rede pública estão matriculados na USP, mas eu aposto que mais de 80% dos estudantes nem sequer tentaram ingressar. Particularmente, eu não gostaria de ser tratada como "mais burra" do que alunos do ensino particular. Logo, na faculdade os valores se invertem e o governo banca quem sempre pagou uma escola particular, e quanto a nós, da rede pública, quem puder que pague por sua faculdade.
O que realmente somos:
Somos todos jovens que almejam um futuro de sucesso, sem exceção. TODOS gostaríamos de aprender e ter oportunidade de ser "alguém na vida". Aliás, essa expressão "ser alguém", só nos induz ao pensamento de que nada somos agora e sendo nada, nada podemos. Não existe um aluno que não entra na escola no primeiro dia de aula e pensa: "esse ano eu vou aprender muito". Não devíamos ser vistos, de maneira nenhuma como "o problema". O problema é o sistema que fez ser assim. O problema é que não nos deram educação nem sequer respeito já no inicio do processo.
É certo que muitos alunos ficaram contentes com a paralisação, mas, será que não é porque a escola é um ambiente que infelizmente nos trás a sensação de que agora já é tarde demais para conseguir? Sim, sem dúvida alguma, muitos alunos vão à escola, e nos poucos minutos que se concentram em uma aula já se sentem incapazes, pois já perderam toda a base do ensino, não é possível, é como construir uma casa sem alicerces.
Paralisar é a solução?
Quando passou na rede globo: "não levem seus filhos à escola no período de greve", eu logo passei a refletir qual o motivo dessa informação estar na Globo. Cheguei a conclusão de que paralisar não é a solução. Vários professores não aderiram à greve, e a escola ficou praticamente vazia, muitas dúvidas poderiam ser tiradas nesses dias, mas na própria tv disse: "não vá a escola". Perdemos aulas assim praticamente todos os anos, será que não é isso que o governo quer? O governo quer pagar professores? Quer bancar aulas? Claro que não! Será que a desvalorização é só do professor? Será que nós alunos também não estamos sendo desvalorizados?
Eu acredito que sim, estamos sendo desvalorizados. E o meu direito de ter aula? Foi perdido? Será reposto de maneira adequada? O que mudaria se os salários do professores aumentassem? Eles só ganhariam mais para aguentar nós alunos com a mesma condição que estamos.
A situação só vai mudar quanto TODOS forem as ruas não pedir apenas valorização do professor, mas valorização de todo o ensino. Quando pais, alunos e toda a rede pedir por reajuste do sistema, por respeito e igualdade disciplinar. Queremos a oportunidade de contribuir no desenvolvimento do nosso país. Não precisamos de bolsa nenhuma do governo, pois somos capazes de aprender e ganhar muito mais, e SER muito mais.