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21 de setembro de 2016


Eu a conheci tarde de mais para realmente conhece-la. Eu não tenho coragem de perguntar. Eu não tenho direito de saber. Mas me lembro de Vinicius de Moraes dizer que um poeta só é bom se for triste... E eu via poema na casa toda, decorada de amor. O que seria daquela casa se não fosse aquela mulher?

O que você gostaria de ser quando crescer? Eu gostaria de continuar sendo aquela criança que um dia fui. Tentei arranca-la de mim. Ou apenas descobrir-me. Mas eu sempre fui aquela criança, eu nunca serei nada além disso, ainda que eu ganhe alguns centímetros a mais. Uma criança perdida de sua mãe.

Em uma tarde de domingo eu deixei de ir à igreja e fui na casa de alguém. Era um lar, que como qualquer outro lar tinha cheiro de recomeço. E ali naquele pequeno mundo, eu olhei para uma senhora que comportava outro mundo por trás de seus olhos. Eu via pela maneira como tinha os olhos serenos e caídos, e como abraçava sua irmã, que ela tinha viva dentro de si uma paz que não se encontra em templos.

Era Maktub. Não se indagava sobre nada, acreditava no tempo, sobrevivia apesar do tempo, nublado, frio, chuva, calor. Sob frágeis raízes de apego, ela tinha amor em seus atos, em seus olhos, até pela maneira de mexer no cabelo, ajeitar a blusa, desculpar-se pela bagunça.

Foi naquela tarde, e a cada tarde, quando a via, trocando poucas palavras, entrando e saindo, sequer capaz de expor um pensamento, eu me perguntava onde o mundo quer me levar. Pelas ruas da cidade vou para lá e para cá, selfies, reclamando direitos, ajudando alguém, incapaz de olhar para alguém, tentando, tentando, tentando... Fazer do próprio mundo um grande lar, mas falhando. Era como procurar Deus no lugar errado.

Por que o lar está no coração. Você não precisa ir além disso. Apenas pare e escute-o. Conserve seu coração puro e você saberá o que fazer. Era o que eu lia a cada dia. Parece que seus passos levam-te apenas onde está seu pensamento. Meu pensamento estava na minha criança cheia de indagações. E eu encontrei-a naquela casa, sentei, conversei com ela. Ainda mais cheia de indagações, era minha paz. Um dia, enfim, ter a força da sua paz.

Minha criança inocente, quebrada pela malicia, um dia queria ter maturidade para perdoar-se, deitar-se no fim do dia e dizer: Deu tudo certo. Como mais uma vez as coisas tinham que ser. Aqui está a vida, grande em sentimento, pequena em espaço e sem razão. Gratidão.

16 de setembro de 2016

A questão não é que vi um futuro para nós, não vi uma aliança em meu dedo, não vi nossas realizações. A questão é que simplesmente te vi. No começo eu queria negar isso, fingir que nada aconteceu, que foi coincidência. Mas não era. Cada dia passava e eu te notava mais, te queria mais, tinha você em meu pensamento. E me pergunto como isso pode acontecer... Qual a formula mágica que une as pessoas, que me fez te olhar daquele modo?

No inicio todo mundo te alertava que meu olhar te dizia tudo. Eu tentava esconder à todo custo, mas eu acabei gostando do seu jeito, gostando da sua voz e fui me aproximando de você. E a química que a gente tinha foi tão forte, e foi ficando melhor quando conheci seus gostos, sua personalidade e seu modo de ser. Foi aí que eu já estava mais do que entregue a você.

Mas e você? O que você viu em mim? Um dia eu te perguntei e tu falou do meu jeito, da minha pessoa, enfim. E então você devolveu-me a pergunta e aquilo me deixou atordoada. Qualquer elogio que eu te faça agora não será suficiente para explicar. O que eu vejo em você parece algo natural, que me atrai, me conecta e faz tudo acontecer. Nossa conexão, ligados um ao outro até meio sem querer.

E sabe, eu agradeço todo dia a essa coisa que me une a você. Eu não duvido não. Eu gosto tanto e faz tão bem! Penso que é tudo que eu sempre quis. Acho que descobrimos o significado do amor, quando percebemos que não existem atribuições que podemos dar ele. É um verbo que não pode ser conjugado. É amar e ponto. É sentir e basta. Seja nos gestos, seja na fala, seja no abraço, seja nas horas sem fazer absolutamente nada.

O que eu vejo em você é todo pouco, que me preenche muito. Os pequenos detalhes e sua presença, sempre presente, desde que você chegou e ficou. O que eu vejo em você talvez ainda nem tenha nome, eu sei que é clichê, mas que seja sempre clichê, um filme repetido que a gente não se canse de assistir, de viver.

11 de abril de 2016


Certo momento em minha vida, eu tracei cada passo que daria, ao longo dos anos que tinha pela frente. Eram planos e metas que me trariam ao lugar certo e que sempre desejei. Quando eu olho para trás eu penso... Tudo parecia tão fácil... Mas acontece que tudo deu extremamente errado, quando menos esperei por isso. Onde foi que perdi o mapa dos caminhos... Aquelas horas que julguei serem as certas?

Encontrar-te foi a unica coisa que nunca planejei. E que grande surpresa! Parece que alguém tinha planejado isso para mim. Você era aquela carta que Deus tinha escondida na manga. Talvez ele já soubesse mais do que eu mesma, o que eu queria. Ou foi um detalhe que ele pode ter esquecido de me contar, pra eu não te esperar tanto e acabar estragando tudo... Como acabei fazendo com todo o resto.

Sei que você pode querer negar que tenha sido minha culpa. Mas foi sim você que me fez acreditar o contrário. Quando te amei pela primeira vez eu entendi que o amor pouco tem a ver com quem a gente ama, e tem muito a ver com nós mesmos. Você me fez encontrar dentro de mim um sentimento que eu nem acreditava que existia. Você foi paz, foi calma, foi confiar não no destino, mas confiar no dia que nasce, a cada manhã.

E então eu confesso que amei cada detalhe seu desde aquela vez que você sorriu e disse para que eu me sentisse à vontade ao seu lado. Tudo que sempre fiz desde então foi confiar em você e no que tinha pra ser. Recebi de volta, não tudo que o dinheiro pode comprar, eu recebi como um presente o tempo mais leve em meus ombros, a força de um carinho que transcende o tempo e o lugar, enfim... Eu recebi o meu coração no seu, meus olhos nos seus, e uma companhia sem pressa de viver o eterno.

E então eu cheguei a conclusão de que nada importava tanto, por pura paixão à ponto de nos deixarmos bobos, à ponto de bagunçar o que nós chamamos de prioridades. Eu era só uma vida. E de repente descobri um amor para chamar todos os dias. Descobri que surpresas colorem nossos dias... E sequer teria tanto sentido se não fossem as dificuldades nos fortalecendo a cada dia. E no final sei que não teria tanta graça se eu não o tivesse ao meu lado.

4 de janeiro de 2016



Festas para mim não são "apesar de", elas realmente merecem um motivo especial. Por isso não comemorei a virada do ano. 2015 não foi uma festa. Pensei então se desperdiçava ou aproveitava esse "momento". Mas ainda que tenha rejeitado o brinde, os fogos e a ceia... Não houve desperdício pois, ainda que não tão feliz, vivi o meu momento, digno de respeito.

Não gosto de comemorar sem motivo. Sentir a vida e o que ela me traz é meu jeito de aproveita-la ao máximo. Não nego, tampouco escondo, o que ela me oferece de ruim. As dores, as perdas, descontentamentos... Não podem ser desconsiderados. É hipocrisia desejar sentir a vida e desprezar a parte ruim. A vida é um combo completo. Um misto de altos e baixos.

Tradições não me convencem. Sorrir por sorrir não faz sentido. Sempre se penso se estou ou não no caminho errado, a resposta nunca me importa, só me importa a conclusão de que preciso de coisas reais para viver. E a vida é movimento e mudança. Tudo que preciso no agora em que vivo, é ser franca comigo mesma e com o mundo, sempre. Só assim posso ser sincera. Detesto aparências, odeio mentiras, mas se eu precisar me safar disso, não hesito em quebrar as regras. Uma, duas, três vezes. Porque nem sempre as regras são justas. Nem sempre elas se aplicam ao meu estado espiritual.

2015 foi um ano em que meu coração permaneceu trancado. Eu precisava superar mais uma fase difícil na minha vida, e era extremamente importante fazer isso sozinha. Ninguém, absolutamente ninguém preencheria buracos nem curaria meu coração. Tive amigos ao meu lado quando precisei chorar, outras vezes recorrer a mim mesma, aos chocolates, às compras e ao travesseiro bastou. O importante é que descobri meu valor e o que realmente importa, assumi o controle e compreendi coisas que ainda não havia compreendido. Não pretendo explaná-las no momento, porque tenho consciência da possibilidade de ainda estar errada. Ainda assim, tanto faz.

Esse ano não foi o melhor, foi o ano dos 18 anos, e confesso que se tornar adulto não é nada bom. Decidi que 2016 seria diferente, quero abrir meu coração, trabalhar com ainda mais paixão, escrever muito mais, melhorar meus aspectos negativos, porém aceitar a cada dia minha imperfeição, acreditando sempre que a cada segunda-feira tenho um recomeço, tenho o perdão e graça divino e a chance de ser melhor.

Não é à toa que dia 1º é dia da paz. Que todos meus dias sejam os primeiros. Minha mente, meu coração, minha saúde. Espero de 2016 não ter medo de viver, não perder a cabeça, concretizar planos e sonhos... 2015 não foi um ano de entretenimento, mas sim de muito aprendizado. E espero ter aprendido a aprender bem, sempre, mais e com precisão. ♥

15 de dezembro de 2015

I will let you stay with me if you surrender...


Não tem problema. Eu sempre vou caber no seu abraço. Dou um jeitinho. Eu não costumo procurar ninguém em corpos (ou copos), não sou vazia à esse ponto. Não esquenta. E se um dia você não entender, apenas saiba. Fique cuidado, anote o recado, não esqueça. Eu não sou boa com corações... Posso te dar o meu, contanto que devolva no fim da tarde.

Eu odeio suas músicas. Mas elas me mostram que gosto de você. Porque mesmo assim às escuto, do seu lado ou até mesmo sozinha no quarto, faz lembrar. E agora estou aqui, pensando se me quer bem. Às vezes me questiono se realmente me importa... Eu sinto vontade de ir embora. Porque às vezes sinto medo. Nessas horas, você me aparece trazendo segurança. Com as palavras, com o jeito, com as brincadeiras...

No final não me importa se me quer bem. Importa que me faça bem. Mesmo que por educação. É a coisa mais linda. Alguém que sabe fazer o bem, não importando a quem. Preciso de pessoas assim ao meu lado. Mesmo te beijando, mesmo sem teus lábios tocar... A gentileza é doçura que descobri na sua alma. Não tenho motivos para não te querer.

Se um dia meu coração quiser muito amar alguém, que seja como ele deseja você. Prezando o querer ficar, mas respeitando o querer ir. E só sei que é assim. Me dispo, me descubro, me presenteio para você, no presente, no pretérito, no futuro. Eu te quero como um poeta quer sua musa. Eu ouço uma canção na sua voz. Ela não entoa promessas, ela não me jura eterno amor, mas seja lá o que ela me diz, me comove como uma sinfonia de Beethoven.

Me permita sorrir enquanto me cativa. Permita gravar na memória como às vezes me sinto feliz por estar aqui. Mesmo que não pretenda ficar. Estou exausta de tantos "apenas mais um". Por favor, seja tudo. Seja especial. Não me deixe contar nossa história para ninguém depois. Para que ela não tenha final. Para que ela pareça real. Ou finja que nunca aconteceu.

Deixe estar,

Aos poucos curei minha dor. Depois tratei de enfrentar meus medos, desprender do que me prendia. Dessintonizar. Topei com meus sonhos, fiz minha correria. E ignorei o que queria, mesmo com as melhores intenções, me atrasar. Não tenho tempo, sempre dizia, para todos que diziam querer me amar. Não quero ser amada. Meu coração está seguro.

Cansei de corresponder às expectativas. Parei de me cobrar o que nunca cheguei a dever. Coragem sempre disseram que tenho e que isso era problema. Meu jeito sonhador e exagero de otimismo sempre assustou quem muito me quis bem. Mas a verdade é que sempre fui um passarinho preso em uma gaiola.

Sempre soube que tinha asas. Aos poucos me permiti voar.

E nesses voos arriscados, eu senti muito medo. Mas há uma força dentro de mim que não me deixa parar. Por ela eu avanço cada minuto do meu dia, eu sorrio para quem me vê na rua, eu não jogo o lixo no chão e sempre falo bom dia. Não quero ser boa moça. Só quero ser justa comigo e com o mundo. Ainda que ele nem sempre seja justo. Ainda que nem sempre consiga voar. Eu preciso manter minha fé e minha chama, só assim permanecerei viva.

Que sorte a nossa ou é Deus ao nosso lado... Sempre caio em bons ninhos. Em gratidão eu aceito tudo o que me faz bem, tudo o que me faz sorrir. Se um dia eu estiver errada, nunca prometi ser perfeita... Não acho injusto querer ser feliz por si só. Nem todos confiam na minha responsabilidade, isso é porque projetam em mim suas frustrações e ambições. Eu lamento decepcionar... Tenho responsabilidade por mim, pelo que faço, pelo que sinto, pelo que penso, pelo que digo. Não sou vítima, também não sou réu.

Fiz um pacto comigo. Escreverei minha história de perdão e gratificação. Com calma, com paz e com desejo de viver. Um eterno entardecer, cheio de ternura e aptidão. 

25 de novembro de 2015


Quero te contar coisas imprevisíveis.

Um dia, sei lá eu que dia, eu te percebi. Você andava pra lá e pra cá e eu era menininha que te via com graça. Você fazia-se notar, eu te fitava mas também no fundo não queria ser vista. Você nunca iria olhar para mim. Então um dia, que eu também não sei qual foi, por graça me fiz notar. Por brincadeira, por estar desocupada, por querer provar pra ver. E o que eu não sabia que aconteceria, aconteceu. Lá estávamos nós, e nossas bocas tão próximas.

Eu sempre tive esse problema, de sem querer acabar fazendo coisas que nem eu sabia que queria. Talvez tudo que eu quero é descobrir aonde a vida pode me levar dessa vez. Qual o próximo texto que eu vou escrever.

E foi tão de repente, eu queria entrar no seu mundo, eu queria conhecer seu gosto, eu queria apreciar suas loucuras... E você me pediu calma. Bastasse meu próprio mundo, meu próprio gosto, minha própria loucura. E só assim podemos ficar juntos. Dois inteiros, duas histórias, dois corpos... Misturam-se agora em formas incríveis. 

Às vezes queremos controlar as situações, o coração é uma caixinha de música que quer estar sempre aberto tocando e quando o fechamos é como esmagar uma bailarina. Mas às vezes precisamos de silêncio, de paz e também de músicas novas. Fé não se pode provar. Assim como não se pode dizer que tudo pode acontecer, quando este tudo não faz parte de nós. Digo o contrário, querido, que nada aconteça. Como dizia Pablo Neruda, para que nada nos separe, que nada nos una.

Assim aconteceu, hoje de tarde, quando eu estava distraída e meus pensamentos se perderam na sua pessoa. Não quero nega-los, não quero retraí-los, só quero permitir-me lembrar. Assim como permiti que acontecesse tudo que aconteceu. Às vezes acho um pouco injusto seu papel na minha vida ter sido tão especial, enquanto eu serei mais um assunto que você irá puxar com alguém. Mas a vida quis assim, você sendo incrível, sendo legal. E a culpa será minha por te ouvir, por te querer. Mas não posso mais me condenar por ser eu mesma.

Não usarei de artimanhas para te conquistar ou seduzir, não pedirei a deus que ilumine esse caminho, nem farei promessa à santo, tampouco uma simpatia. Apenas estarei aqui caso você queira, porque eu quero muito. E um dia eu posso me cansar e chatear, posso sentir um pouco de culpa por ser assim, posso inclusive me machucar... Isso faz parte da vida, e eu não quero negar a vida, meu direito de estar aqui, de sentir o que me faz sentir quando nos encaramos, de conhece-lo como parte de mim, pois isso em breve se tornará escolhas que fiz e que moldaram o que sou/serei, então logo poderei me perdoar, sempre capaz de me consolar, e findar um poema.

24 de novembro de 2015


E lá foi mais uma segunda-feira. Um ótimo dia para começar um livro novo, para conhecer alguém novo, para desejar uma ótima semana para desconhecidos. Eu queria saber como as coisas podiam melhorar. Mas a vida é contínua. E em meio à tantos desencontros, ela parece ter alguma lógica.

Então pensei, do que se trata a vida? Ora, me dê um gole, um trago, dessa coisa que chamamos de vida... Eu sinto que tem algo sendo dito, no desabrochar de uma rosa, numa mão entrelaçada, num sorriso estalado, num olhar meio inseguro....

Uma ansiedade repentina tomou meu peito, preciso muito mandar uma mensagem para um amigo, sorrir para alguém, conversar sobre meu dia, resolver as pendências. Mas não há ninguém, é segunda-feira. Todos estão começando livros novos, conhecendo pessoas novas, pensando como podem melhorar...

Então eu me chateei com a vida. Só queria o colo de meu bem.

Coloquei os fones de ouvido, Adriana Calcanhoto cantava "o amor é hiper quântico"... Novamente, um foco de luz acendeu baixinho em meu peito. Quando a vida assusta, temos um fenômeno contrário, dado por medidas discretas, que costumam acalmar o coração. Olhei em volta e abracei a vida, ou só a lembrança de que estou viva. Pensei no que fazia sentido para mim, e só isso bastava.

Entre tantas segundas-feiras, de vez em quando, tivemos um ao outro. Não tenho mais medo do seu passado. Eu entenderei o seu depois. Mas enquanto fazemos parte de um presente em comum, quero agradecer seu bom dia, desejar-lhe boa noite. Talvez um dia isso falte, mas de alguma forma isso também parece ter um pouco de sentido, pois me faz sentir. 

Eu sinto que apesar da minha contradição, apesar da minha indecisão... A vida às vezes corrida, apressada - e eu tão calma - adoça meu filme com tamanha precisão, que no fim do dia, eu não posso nunca dizer que não valeu a pena, posso apenas registrar em minha mente, em meu peito, na folha de um papel, tudo que foi bom.

E aos poucos acho que deixo de querer o futuro, de sentir essa ansiedade, a ponto de estar sempre só... E compreendo agora que devo falar mais, expressar-me melhor, aproveitar cada momento, sem me indagar como será quando tudo isso deixar de ser tão real. Pelo contrário, sempre será real, tantos erros quanto acertos, e eu decidi que só quero deixar marcas doces e discretas, no coração de quem me fizer entrar.

E tenho minha paz restaurada, nunca me importou tanto quem não esteve aqui segunda-feira, importa-me agora que eu escuto as rosas, as mãos entrelaçadas, sorrisos estalados e olhares inseguros. Compõem uma história compartilhada.


11 de novembro de 2015

Certa tarde, enquanto trabalhava, observando a movimentação na loja e perdida em meio ao que tínhamos ao nosso alcance para fazer, um cliente bem jovem pegava alguns livros na sessão infantil e sentava-se na poltrona para folheá-los. O que o chamou atenção foram alguns livros de colorir que podiam ser pendurados na maçaneta da porta, com um "Não Entre" bem grande escrito na capa. Intrigado, cutucou sua irmã e disse:

- Todos esses livros dizem "não entre" mas, é possível, de fato, entrar em um livro?

Naquele momento, sem conter meu riso, finalmente entendi, através de uma indagação tão inocente, que livros são portas abertas que podemos adentrar. Mas para isso, é preciso ainda ser um pouco criança: com curiosidade de saber, e coragem para tentar. 

Tenho um amigo que sempre me diz: "trabalhas com as duas melhores coisas: livros e pessoas". Sempre que penso e concordo com isso, sinto-me uma artista, pois trabalho tão somente com bens imateriais.

Quando questionam-me sobre best sellers e livros mais vendidos, sinto pela valorização do que é banal, como em tudo em nossa sociedade capitalista, onde infelizmente muito tem preço e pouco tem valor. Mas acredito no bom leitor. Como assim? Ora, eu explico, o escritor só precisa de uma história para contar e um bom editor, já o leitor precisa estar disposto e apto para compreender o texto e julga-lo conforme seu parecer.

Temos o mal hábito na leitura - que inclusive passamos às crianças - de ler livros sem questioná-los. Livros não foram feitos para serem engolidos, e sim degustados. Uma leitura nunca será prejudicial quando entendermos que não existem verdades ou mentiras, e sim ideias apenas. 

Por isso, acredito que não exista livro tão ruim que um bom leitor não possa aprender pelo menos uma lição. Acredito que não exista leitura tão banal que não possa nos levar a uma leitura essencial. O segredo é ser criança. É ser curioso.

O livro não é uma coisa que você compra, lê e deixa no canto. O livro é um manifesto, uma intervenção, e você é o critico que irá manuseá-lo, mesmo que por entretenimento. Mesmo que eu seja responsável pelo que meu leitor irá compreender, nem sempre serei capaz de convencê-lo, mas acredito que o maior intuito de qualquer escritor não é escrever bonitinho, tampouco ser persuasivo, mas ser capaz de projetar seu mundo em outro mundo. Sua visão, suas ideias, sua mente, na mente do outro. Notabilizar as diferenças.

E de repente, você não entendia como era estar em qualquer situação, mas você leu uma história e colocou-se no lugar de cada personagem. E você aprendeu. E você entendeu. E você não julgou. E isso te ajudou a ser melhor. Por isso, sim, digo: por favor, abra sua mente e entre no livro!

"Bons amigos
são livros
Abertos ou fechados
Estão sempre
ao nosso lado
E quando
nos desesperamos
com a solidão
Lá vão eles
nos mostrar
Que se fechar em si
Pode ser o inicio
da imensidão." - Antonio Rogério Cazzali

5 de novembro de 2015

"Pra falar verdade, às vezes minto... Tentando ser metade do inteiro que eu sinto" - OTM



Não questione o que sinto, se  é que sinto. Da primeira vez que você me notou, eu estava sentada em frente ao mercado, de vestido e chinelo, assumindo o risco de ser quem sou. Na minha mente, havia uma lista, eu queria descobrir 1. o som da sua voz; 2. como você fica sorrindo e 3. se era um cara legal. 

Ao ouvir sua voz, te ver sorrindo, te achar legal, eu descobri que podia escrever um poema. Algo como, "sua voz é uma canção que entoa seu sorriso em veracidade de sua personalidade". Mas essas palavras não combinariam, não chegariam nem perto, do poema que escrevo enquanto nossos lábios se tocam.

E não de repente, nos conhecíamos. Será que o conheço?

Acabei pensando em tudo que já vivi. De tudo que senti, que foi tão intenso, e foi tão romântico, e tão bem narrado, não passou de uma mistura de dúvida, de incerteza, de "quem sabe?". Aprendi que "para sempre" e "eu te amo", são frases que proferimos às vezes mais por medo do que por certeza. Não quero mais ter que ter certeza do que não posso comprovar. Não quero mais falar do meu coração. Não seria justo comigo.

Quero ser sincera. Pra falar das coisas que já sei, que adoro sua voz e sua companhia, e se me permito isso é problema meu. Quero-te por perto, divertindo os dias, conversando se valer a pena. Mas se quiser ir embora, vá. Não seria o primeiro, sua sorte é que aprendi a deixar as pessoas irem, e continuo viva e contente. Coleciono boas memórias de quem me fez pensar no "talvez pode ser"... Só você fez mais que isso, me fez acreditar no "isso não será mas e daí?".

E enquanto você só pousa seus olhos em mim, sem querer, saiba que meus olhos são a porta do meu coração. O por que de eu escrever sobre você. Se um dia eu me apaixonar, quero que seja assim. Com os olhos de alguém pousados nos meus, e num leve toque das mãos. E num simples cuidado no dia-a-dia, num cumprimento no meio da tarde... Porque eu prezo a paz e o sossego de não possuir nada além do que o próprio bem querer.

E, se a questão fosse tudo isso, eu amaria você. Mas não estou preocupada com isso.

2 de novembro de 2015



Eu não sei dizer exatamente quando foi a primeira vez que sentia isso ou qual foi a primeira lembrança que alojou em meu coração, uma estadia quase eterna. Quando eu me sentava pelos cantos da sala e compunha poemas e melodias, segurava lágrimas e passava a protagonizar minha história: minhas escolhas, meus pensamentos, meu viver. Fugia às regras como quem foge de uma catástrofe, criava meus meios de sentir-me bem. Os céus me perdoem, são poucas coisas pelas quais me arrependo.

Quando abraçava e dizia adeus a quem eu amava, eu sentia uma coisa em meu peito, que era um aperto e um conforto, que era a calma e a desesperança. Se não sentia paz, não procurava-a. Passei a acreditar que tudo que sentia era o que me compunha, então eu sentia mais e amava mais e chorava mais e despedaçava-me em mil. Reconstruía-me. 

Quando eu subi as ladeiras de Olinda eu encontrei respostas em meu coração para perguntas da vida. Pessoas que lutaram e guerras, pessoas que tinham grandes ideias, que construíam um mundo sob o mundo que pisávamos, que transformavam pensamentos em matéria, nos permitindo quase enxergar uma canção. Eu perdi a conta de quantos lugares, corações, olhares, sorrisos habitei. Não sei dizer até onde hei de habitar. Não fiz o bem. O próprio bem me fez, na sua perfeita vontade, imperfeita.

Me questionaram então, se eu queria viver um grande amor.

Eu já vivo um grande amor há 18 anos. Um amor pela vida, por Deus Pai que me amou quando nasci. Eu vivo um amor pelo que me faz escrever aqui e em qualquer lugar. Eu pertencerei a esse amor para sempre. No colo de quem me querer bem, ou em longas noites silenciosas. Eu estarei aqui, pela Fé, até a vida esvair-se. Até meu corpo esvaecer. Até minha alma morrer. E este será o principio. 

Porque eu acredito, sobretudo, no Amor. E minha vida não é composta de atos de barganhas, é uma sucessão de lembranças que guardo em gratidão, pelo que ganhei ou perdi, pelo que errei e aprendi, no coração. Eis o meu viver, até morrer.

11 de outubro de 2015



Ela vinha dalí, daquela esquina, sempre surgia com um sorriso no rosto e o coração na mão. Sempre com os mesmos chinelinhos, ela era a garota de domingo, quando me avistava apressava um pouquinho o passo e desviava o olhar distraída. Quando víamos-nos aos domingos, eu a estranhava, sempre aquela cara de sono, aquela preguiça estalada, aquele shortinho desbotado, o cabelo ao vento. De segunda à sexta era coque, batom e salto alto... 

Eu estranhava, porque até então, não sabia que era dono de seus suspiros. Não imaginava que a tinha em seu estado bruto, que tinha canto em seu delicado coração. Quando a via sorrir e mexer no cabelo daquela forma... Eu sabia que beijava e possuía uma peça rara. Ela pensava tanto, nunca entendi como sempre chegava a conclusão de que queria estar ali ao meu lado.

Porque ela nunca me amou.

Ela nunca me amou porque ela já era o próprio bem. Sempre que vinha ou quando ia embora, se equilibrava em sua corda bamba de sentimentos e emoções. Ela queria-me bem. Ela queria-me em paz. Uma paz que sua cabeça tão confusa, medrosa, tão atordoada e sem certezas, não poderia nunca proporcionar. Seu jeito não lhe permitia falar demais, tampouco me perturbar com sua filosofia. Queria mesmo estar pronto para ser afortunado com um pouco daquele alento que ela carregava dentro de si, sempre espancando-se, curando-se, caindo, levantando.

Nunca esteva pronta para estar comigo, mas mesmo assim ela vinha, porque queria, sabia bem que o que tínhamos eram apenas fragmentos daquele curta que é a vida. Ela ria mesmo nervosa, ela compunha uma canção triste enquanto nos beijávamos. O que tínhamos é como areia que se esvai pelas mãos, nunca, de forma alguma, poderia ser possuído. Sentíamos as finas cócegas na palma da mão, grão por grão... E o cheiro e nossos olhos pousados um no outro dando uma espécie de calma, de sentido, de que estávamos vivos.

Sempre que ela sentava ao meu lado, eu sentia em seu silêncio e em sua paz, que ela era uma garota completa, que tinha mais que a mim, a própria companhia. Não desperdiçava palavras e tinha cuidado com o coração, ao mesmo tempo que vivia sua vida como quem não se importava com nada, tão organizada, tão contraditória. Aquilo que vivemos fez sentir algo que não era amor, parecia algo diferente e tão melhor. Algo que você nunca iria entender, porque nunca viu aquela menina virar a esquina com aqueles chinelinhos.

8 de outubro de 2015


Meu jovem, havia um tempo, vou agora contar. Um tempo que via girassóis em suas respectivas funções. Antes de parar aqui, atrás deste balcão, acreditando ser o que é a vida e o que eu queria, fui outra e queria outras coisas. Escrevia poesias, eu passava longas tardes a pensar e a sonhar. E sempre entendi que era feliz por aquilo. Presa numa gaiola aberta, contente.

Nunca tive medo da vida, entendes... Tinha medo de mim. Era intensa e não me compreendia, sempre fui muito sincera. E sentir era bonito, e doía, mas era puro. Parece-me que não pensar muitas vezes é a forma mais rápida de ser feliz. Mas o que me descontentava era não me contentar. A felicidade de certo é boa, mas eu não queria apenas ser feliz. Eu queria a vida, e esse querer me parecia perspicaz.

Entre o medo e a coragem, a fé e a descrença... Eu confesso agora que senti coisas com tamanha agudez e tanto espirito que não sei como fui capaz de não morrer por aquilo. Eu confesso a ti que morreria, se fosse possível. A minha vida já valera a pena desde então. De frente ao espelho observava minha alma em meus olhos.

E hoje estou te contando pois não escrevo poesia. Estou te contando porque não vou me trancar no quarto e chorar. Estou te contando porque meu olhar se tornou impassível. Veja: estou morna. E todas às vezes que te encontro sinto a mesma coisa. E sou a mesma pessoa. E nada te surpreende, nem nada surpreende a mim. Compreendes?

Eu poderia ter morrido naqueles dias, pois não sou nada, além dum poço de sentimentos seco. Longas cartas de amor, poesias e descrevê-lo não faço mais. Sou ainda muito funda, muito intensa. Mas tranquei-me naquela gaiola. E quem sabe um dia ainda me chove uma paixão que me permita ser poeta outra vez.

Então, tu me dizes: o que és agora? Por hora, respondo-te que sou a memoria do que fui. A consequência do último verão.

27 de setembro de 2015

Eu poderia escrever agora, sobre o eclipse, sobre o trabalho, sobre a conclusão da aula de ontem... Eu poderia pesquisar e chegar a conclusão da maior polêmica da semana. Mas quando eu paro e sento, tudo que penso é isso: eu gostava dele. Eu sei que meu coração não contribui com a humanidade, que meu capricho não colabora com a vida em sociedade. Mas eu não queria mesmo nem saber. Era como uma certeza, um dom que corria em minhas veias, que transfuso através da escrita.

Mas era um sentimento que não dava vida, não dava nada. Apenas acontece que, quando sentimos muito que queremos alguém, faz-se necessário escrever, ainda que uma ou duas linhas, meu jeito de eternizar o que me parece que convém. Ainda que agora, sinto que meu tempo está perdido por ceder a essas palavras que escrevo.

Sei bem que a poesia nunca nos fez gênios, sei bem que meu gênio nem sempre me fez poeta. Eu sou um mar de especulações que não cabem em versos, que não se encaixam nas estrofes. Sou desconcertada. Mas por um segundo, o que acontece no intervalo entre duas imperfeições, eu apreciei um momento muito bom: me enxerguei sorrindo nos olhos dele.

E era sobre isso que meu mundo girava. Foi o poema que decorei. Como eu podia gostar tanto de vê-lo ali, simplesmente vê-lo fazendo parte da minha vida? Fiquei com medo, não de perde-lo, mas sim de perder minha vida e não poder mais ter esse momento. E a cada dia, sem querer, me perdi um pouquinho.

Quando dei por conta, estava totalmente perdida, afundada num mar de discórdia. Eu sentia, mas parecia que sentir não era suficiente. Foi aí que dei por mim, que virei uma indecisão, e não tinha mais certeza de nada. Inclusive de amar. E parece que me perder, foi essencial, para que pudesse me encontrar.

Mas eu gostava tanto dele, hoje me lembrei. Mas não sei se penso ou se realmente isso aconteceu. Se ele é rastro da memória, ou uma teoria baseada predominantemente no meu raciocínio abstrato. Eu achava que gostava quando ele me tirava pra dançar, quando me dava colo no fim do dia, quando fazia acontecer coisas que não aconteciam. Ou só gostava de ver a mim, em seus fundos olhos castanhos.

Desculpe o amor, perdoe-me a poesia. Penso até hoje que gosto mais de mim.

17 de setembro de 2015


Menina

Se hoje você está sozinha, se hoje está sofrendo, ouve meu conselho: trança o cabelo, ergue teu peito e faça-te melhor companhia a si mesma. Prepara teu chá, teu livro, tua balada, teu amigo. Beija o mal partido, despe-se de boa intenção, dorme um pouco, aproveite a vida.

Se hoje se sente carente, abraça a pelúcia, abra uma caixa de bombom e se lambuza, seja feliz com o que tens. Não se preocupe, não se pergunte se um dia virá alguém. Concerta tua vida, aprenda a se virar sozinha, não tranque o coração. Continue sentindo, pelo sim, pelo não. Sinta a vida com seu vazio. Preencha-se dos seus pensamentos, cria tuas histórias, teus momentos.

A vida não espera por você. Então não espere por ninguém.

Não deixe de ser quem é, por nada nesse mundo. Faça do que era rascunho, sua melhor versão de si mesma, reinvente-se até se gostar. Ande com pessoas positivas. Peça o número de algum rapaz. Faça acontecer. Encante-se e desencante-se. Diga a verdade, que gostou ou não gostou do tipo dele. Saiba o que quer.

Esqueça de dizer "eu te amo", é piegas. Diga mais: gostei de você, gostei de estar com você, interessei-me por você... Diga coisas mais concretas, que façam mais sentido. Não desprezo o amor e por isso mesmo peço-te para não banaliza-lo. Saiba primeiro, diga depois. Ninguém fica porque é amado, mas sim por sentir que precisa ficar.

Não espere reciprocidades. Doe-se por inteira sem esperar nada em troca. Não crie expectativas. Seja apenas sincera consigo mesma, e abra sua mente para as divergências da vida. Bem vinda ao mundo do não-conto-de-fadas: Onde não existem mocinhos nem vilões, existem apenas seres falhos, que cometem erros mediante situações do tempo e seus contextos. Aprenda a compreender.

Menina, se hoje o seu peito está apertado, deita, chora e dorme, que passa. Repensa sua vida, toma uma atitude, chora mais um pouco, rega tuas flores, cuida do seu jardim. Onde alguém deixou aberta a dor, cure você mesma sua vida.

13 de setembro de 2015


Ora se não é aquela menina... Aquela, que disse que nunca mais faria isso. Está aqui, boba. Esperando um cavalo branco, nem precisa do príncipe... Vai. Mas ela está aqui. Esperando que ele a note, ficou pequena, assim, de novo... Virou uma garota de defeitos... Que não é mais aquela confiança e pose. Ela queria dengo... Mas que dengo coisa nenhuma! Quer levantar a cabeça, sorrir. Fingir que não vê... Ora... Só não tem a coragem. É isso! Talvez não falte um bom moço... Nem muito menos um cavalo... Talvez falte apenas um pouco de coragem.

Pra seguir em frente, sabe? Olhar pra ele e entender que... Puta... Não é ele. E não faz diferença não ser ele. Porque ele... Meu amigo, ele é apenas ele. Não mais. E talvez... Por ele ser apenas ele... Ela queria tanto que ele a enxergasse. Não tem mais nenhum ele no mundo, nem ela, e juntos podiam ser dois em um, ainda mais únicos, mais extremos, aflorados... Seu ideal. Só que...

Ele não enxerga. Na sua cabeça, tão calado... Chega a ser cruel. Ele insiste em ser mais um. Insiste em ser o cara que não ligou, o cara que não quis e o cara que não era pra ser. Apesar de tão bacana... Apesar de tão... Tão... Tão... Nada demais. Ele era... Não é mais. Hoje. É oi, é frio, é dureza no ser dessa moça...

Mas esse é seu jeito... Não quer ser. Não se importa... Ou não a vê? Mas como não a vê? Como ele não a vê? Isso é tão... Triste. Pra ela... Sempre vista... Jugava que isso jamais aconteceria... Julgava te-lo nas mãos... Quase pobrezinha... Quase...

É inútil. Que falta de elegância. Ficar aqui à mercê esperando ele vê-la. Que inutileza... Indelicado... Cru... Toma essa coragem, menina. Engole seco. Levanta, diz que não liga e cruza o dedo... Foge ... Mas pelo amor de deus, saí daí! Ele não te quer... Não é você que ele vai querer... Nem agora, nem nunca. Aceita. Dói, mas dói menos e passa mais rápido. Vamos, levanta. Vamos, levanta. Vamos. Levanta...

Menina... Ora se não é você... Esqueceu que agora é mulher? Novamente ainda, no intimo do teu ser... Aquela menina.

31 de agosto de 2015


Você parou no meu cais como um soldado de chumbo à procura de sua bailarina. Doce mar te trouxe ao cais que atraquei. Eu rodava, naquela caixinha de música, tão sozinha, pouco encanto, centro do meu universo. Foi você que apareceu. Mas senti como se fosse sua mão tirando-me dali. Eu não resisti ao seu universo.

Eu nunca te quis no meu mundo. Queria rodar na sua caixinha salva-vidas. Eu queria o seu mundo, sua terra, seu porto seguro. Sua voz era mais doce que o som do mar. E trazia um tipo de paz que a solidão nunca antes pôde proporcionar. Não quis saber de mim... Quis saber de ouvir sua música, que entoava nas palavras que você dizia, uma a uma, formavam uma só canção, bela e que me fazia dançar.

Dancei para você, no cantinho do seu universo. Tu ria da minha poesia. Me fitava como quem não entendia minha dança, me abraçava como quem me queria ali. Eu não decifrava seus sinais, pois tudo o que queria era dançar, para, quem sabe, te embalar e, você gostar e sorrir. Eu não queria nada além de nós dois ali, atados, calados, procurando refúgio um no outro, enquanto navegando num mar de incertezas.

Apaixonei-me pela esperança de não ficar tão só. Apaixonei-me pela voz que não era coisa da minha cabeça e sim alguém falando para mim. Apaixonei-me pela sua forma de remar, de me assistir, de encontrar terra à vista.

Encontrou terra à vista.

Me deixou lá.

30 de agosto de 2015


Era dia comum. Acordar, vestir-se, salto, batom e bolsa cheia. Um detalhe. A bolsa cheia dava essa impressão, de vida preenchida. A vida dentro da bolsa. Transbordando, ali, apertada, fechada. Carregada. Mas enfim, carregava aquela bolsa cheia, pesada... E corria, contra o tempo, contra o ônibus que ia passar, lotado, mais carregado, e o ar parecia pesar. E ali ela se equilibrava, entre o meio fio e o medo, de ser assaltada, de ser atropelada, de ser conhecida, de ser encontrada. Ela fugia de si, em cima do salto e de batom, ela fugia da vida e ia de encontro ao futuro. E o futuro era um saco de cansaço sem fim.

Mas ela sentia que estava no caminho certo, sem certeza, com medo.

Seus olhos tentavam não perder o foco, mas nem sempre conseguiam, miravam o céu, analisavam os moços que passavam do outro lado da rua, e ela tentava esconder, ser discreta, não esbravejar o que queria, o que sentia, a solidão, a correria, a realização pessoal, o desejo. Os passos iam retos em uma direção e o coração batia pelos lados, tomando rumos sabe-se lá Deus para onde. Mas seus olhos desviavam e, nestes desvios, acabaram de encontro à uma janela.

E naquela janela, no segundo andar do prédio mal-acabado de esquina, escondia-se uma menininha entre as cortinas. Fitava então a moça pelo qual seus olhos fora atraída. E entreolharam-se por alguns segundos, naquele dia comum, ela encontrou repouso nos olhos daquela menina. Que tinha tanto sonho, que tinha tanta inocência, que tinha pouco de vida, e não sabia, que esse pouco era tudo. Era tudo. Era absolutamente tudo.

Mas já estava perdido. Aquela menina não a fitava por acaso. Ela espelhava-se na moça. Era seu passado. Já sabemos que um dia, aquela menina, que ali, de manhãzinha, olhava pela janela as pessoas que passavam, um dia haveria de ser as próprias pessoas que passavam. Eu quis. Você quis. E os braços da casa com sua proteção... Descartamos. Ansiamos o mundo, e vamos para ele. Seja com a bolsa cheia, com o bolso vazio... Vamos nos contaminando, o batom escurece, o salto aumenta... E não somos mais menininha que olha na janela.

E aquela moça, que passava pela rua, um dia quis tanto passar pela rua, mas já não era da forma que esperava. Passava agora, mas de outra maneira. Porque mudou. Mudou seu jeito de pensar, seu jeito de andar, seu jeito de ser mudaram. E seu modo atual não a permitia usufruir de sua expectativa que criara há anos atrás. Se pudesse, diria isso à menina da janela. Mas sabia bem que ela não entenderia.

E continuou a caminhar.

25 de agosto de 2015

Eu queria, no fim do dia, deitar e dizer: Consegui. Me encontrei. To a salvo. Deu tudo certo... Mas eu tenho um livro, eu tenho um verso e uma vontade... Que não cabem em lugar nenhum. E eu nunca me encontro, e nunca é o suficiente.

Eu queria, no começo do dia, ter a certeza de que voltaria para casa viva. E não apenas viva, mas completa. Sem deixar rastros no mundo, apenas pequenas marcas delicadas no coração. Fazer sentido...

Mas parece que a calma é a virtude que meu ser rejeitou. Apesar de estar calma. Apesar de sentir-me em paz. Eu queria mais. Queria correndo, queria gargalhando, embriagada, louca. Tudo está em paz, mas a paz é incomoda quando somos jovens. Queremos sentir a vida, não em sua plenitude, e sim na sua forma borrada, errônea, apaixonada...

É o que é bom? De forma alguma... Mas não nascemos para fazer sentido, agora percebi. Nascemos para fazer sentir. Para sentir pulsar. Para querer demais, vulgar, dando-se o luxo dessas palavras, dessas luzes, da Avenida Augusta. Onde o afeto se torna um borrão, e nossas crenças se diluem no 95% álcool e na falta de lucidez.

Lucidez? Eu desisti de encontrar respostas para minhas perguntas. Permiti viver o dia como ele é. Pensar o que vem a mente. Se preciso, xingar. Se preciso, sorrir. Para a morna rebeldia. Para a norma culta. Para a prova de matemática. Eu me perco no momento que me procuram. E eu não quero mais isso. Eu quero aprender, sim. Mas quero ter a coragem de ser o melhor de mim. Apesar de errada, apesar de incoerente, apesar de infeliz e cansada.

Não queria mais. Passei a querer e o universo me revelou as coisas boas. Me revelou as incertezas da minha vida. Não revelou para que eu soubesse, mas sim, para eu enxergar que não sei. E, apesar da fé, a incerteza finalmente se tornou parte da vida. E foi melhor assim.

17 de agosto de 2015

crônicas
Ele me olha, eu posso notar. Mais que notar, sinto. Seus olhos penetram-me, invadem-me, e me deixam insegura. Mas eu adoro a sensação de ter seus olhos pousados sobre mim, ou desviados para mim... Ou atraídos por mim. Eu também desvio meu olhar, finjo que não percebo sua existência, enquanto nossos olhares se cruzam, você também não percebe a minha, fingido.

Seu olhar, cheio de malícia e ao mesmo tempo tão recluso, diz tanto! E consente tanto, cala tanto! Eu fui fisgada. Sou vítima. Estou à mercê, necessitada, para que apenas olhes para mim. Não é tudo que eu quero, nem tudo que sinto. Mas seu olhar... É como se fosse uma esperança, de que ainda, na turbulência, na correria, alguém me nota. E me nota por querer, sem ignorar. E tantas pessoas conversam, e tantas abraçam, e todas sorriem, mas nenhuma é como aquele olhar. Nenhuma é tão quieta, tampouco tão misteriosa quanto aquele jeito de desviar os olhos e fita-los em mim.

Delicio-me. E eu quero mais que aquilo. Eu quero seu sorriso. Eu quero sua voz. Eu quero seu timbre... Quero mostrar-lhe que sou mais do que vê, não há medo. Desfazer sua graça, refaze-la em tênue ternura. Em terno corpo, em beijo, em atração. É mais que conhece-lo. É acreditar que essa bobagem pode mudar o rumo de toda uma vida. É acreditar no destino, na química, no cosmo.

E é apenas por um olhar...